Treinando atletas com deficiência visual

Me pediram para que falasse a respeito de Judô para atletas cegos e tive a oportunidade de descobrir um novo mundo de possibilidades. Há um tempo atrás falei sobre esse mesmo assunto, mas as informações que eu tinha eram muito limitadas. Não parei de pesquisar e o prêmio por isso foi o conhecimento  desse lado tão bonito do judô.

Gostaria de compartilhar um artigo de  Neil Ohlenkamp. Aproveitem!

Judô é um dos poucos esportes que atletas com deficiência visual podem participar de forma plena, sem maiores adaptações. Talvez porque o judo tenha evoluído como arte marcial desde sistemas antigos de combate, o atleta cego pode atingir um senso especial de satisfação por participar em pé de igualdade com atletas sem qualquer problema visual. Em competição, tanto em shiai como em kata, atletas cegos tem alcançado grandes sucessos contra atletas com visão normal.

O campeonato mundial masculino para atletas cegos tem sido realizado desde meados dos anos 80, quando a Associação Internacional de Esportes para Cegos aceitou o judô como esporte paraolímpico tendo em 1995 também organizado competições femininas a partir de 1995. Os Estados Unidos tem alcançado excelentes resultados na classe mundial para competidores cegos, tais como:

  • 1987 Copa do Mundo: duas medalhas de ouro
  • 1988 Paraolimpíadas: duas medalhas de bronze
  • 1990 Campeonato Mundial: uma de ouro e uma de prata
  • 1991 Campeonato Kodokan : uma de prata e uma de bronze
  • 1991 Copa do Mundo: uma de ouro e uma de bronze
  • 1992 Paraolimpíadas: três de prata

Hoje, as oportunidades existem para competição e treinamento a nível  local, regional, nacional e internacional e campos de treinamento específicos para atletas cegos.

Quando do trabalho com judocas com deficiência visual, devem-se observar alguns princípios que podem auxiliar o professor em propiciar o melhor ambiente de aprendizagem possível. Esses princípios são basicamente os mesmos princípios aplicáveis a qualquer outro judoca, e pode ser traduzido  da seguinte forma:

  1. Use descrições verbais para suplementar as demonstrações. Seja o mais preciso possível. Quando estiver descrevendo uma ação evite usar termos como “desse jeito”, “coloque a mão aqui”, ou “se move dessa maneira”. Termos que se relacionem com dicas visuais não darão  informações para os deficientes visuais e o judoca pode se sentir confuso. Especifique claramente qual parte do corpo está envolvida na técnica (esquerda ou direita, por dentro ou por fora) e seja consciso na descrição. Descreva a técnica ou exercício em uma velocidade normal enquanto é demonstrada.
  2. Não interrompa a aula para que o aluno possa perceber onde está o professor. Sinta-se à vontade para usar um estudante como perceiro na demonstração, mas tente usar também os demais de maneira que propicie também aos demais acompanhar o que está acontecendo.
  3. Trate o atleta deficiente visual como pessoa. Aprenda sobre o grau de deficiência visual aquela pessoa tem e não faça suposições a respeito das habilidades ou do nível técnico do atleta; existem atletas cegos com pouca coordenação assim como outros altamente coordenados, assim como qualquer outro estudante, uns aprendem rápido e outros devagar, existem fraquezaes e forças das quais se pode tirar vantagem. Trabalhe com as necessidades individuais, mas não trate o deficiente visual como se fosse um aleijado.
  4. Para aqueles que podem se beneficiar disso, comece com uma orientação da sala e da área de treinamento. Permita que os deficientes visuais se familiarzem com o ambiente à sua volta através da exploração e da descrição verbal, enfatize qualquer ameaça em potencial, para permitir que os estudantes sejam tão auto-suficientes quanto possível.
  5. Durante as instruções ou treinos, dê dicas audíveis, permitindo com que o estudante determine sua localização na sala mesmo sem ver. Não permita que o estudante vaguei pelo tatame ao que se dirija a qualquer lugar perigoso, mas evite agarrá-lo ou puxá-lo para lhes mostrar a direção, a não ser que isso seja necessário, para resguardar-lhes a segurança. Ofereça-se para guiá-los, se achar que eles precisarão de ajuda. Condicione-se às instruções verbais, de forma a respeitar a dignidade do aluno.
  6. Desafie o atleta deficiente visual como qualquer outro atleta. Espere participação total e esforço máximo.
  7. Integre atletas cegos em aulas regulares de judô, mas permita, sempre que possível, oportunidades para competição e treinamento com outros atetas cegos. Ensine os outros competidores sobre as regras especiais de competição para atletas cegos.
  8. Ouça seus alunos e deixe-os dizer se eles precisam de ajuda. Sinta-se a vontade para perguntar o que você poderia fazer para ajudar.
  9. Evite ensinar baseando-se em equívocos. Em que pese alguns atletas serem bons no trabalho de solo, é um mito presumir que todos eles gostem das técnicas de solo. Deficientes visuais podem fazer varridas de pernas, eles podem executal ukemis e katas, e eles podem ser efetivos em qualquer outro aspecto do judô.
  10. Os atletas deficientes visuais não querem que os outros olhem para eles com simpatia. Da mesma forma, eles não querem sentir como se o que fazem fosse inspirador. Não é necessário uma coragem especial para que o atleta cego pratique judô. O atleta cego quer as mesmas oportunidades de participação que qualquer outro tenha, sem carregar consigo qualquer bagagem ou resposabilidade. Todos os estudantes de judô são corajosos e inspiradores, e todos eles superam grandes dificuldades e problemas pessoais.
Tenham todos uma ótima semana.

Judô para deficientes visuais

Olá meus queridos,

Demorei bastante tempo para essa nova postagem por alguns motivos de caráter pessoal, mas acima de tudo em virtude da escassez de material especializado.

Aproveito para compartilhar um assunto de extremo interesse social.

Bom proveito!!!

Segundo Ramon Macedo, para o deficiente visual, a imagem do corpo, bem como sua interação com o meio-ambiente, são conceitos abstratos, porque eles não dispõem de referencias visuais. Por essa razão, eles acabam por desenvolver os outros sentidos.

Devido às dificuldades inerentes à ausência de visão, os deficientes visuais acabam por desenvolver o sedentarismo, a falta de equilíbrio e outros problemas relacionados.

O judô pode atuar como via determinante para a auto-descoberta, bem como meio de desenvolvimento da mobilidade independente e da orientação segura.

O judô é praticado por atletas cegos e com deficiência visual que, divididos em categorias por peso, lutam segundo as mesmas regras da Federação Internacional de Judô.

Poucos aspectos diferem do judô convencional. São eles: os atletas iniciam a luta com a pegada feita (um segurando no quimono do outro), a luta é interrompida quando os oponentes perdem o contato e não há punições para quem sai da área de combate.

Judocas das três categorias oftalmológicas, B1 (cego), B2 (percepção de vulto) e B3 (definição de imagem) lutam entre si. O atleta B1 é identificado com um círculo vermelho em cada ombro do quimono.

O sistema de pontuação é igual ao olímpico e sua prática pode ser feita entre atletas cegos e não-cegos.