Do jujutsu ao judô – por Jigoro Kano

Na juventude, eu era um pouco irritadiço e às vezes apresentava um temperamento esquentado. No entanto, depois de alguns anos treinando jujutsu, achei que minha saúde tinha melhorado.Tinha ficado mais calmo e consequentemente tinha maior autocontrole. Também concluí que o mesmo espírito era necessário para triunfar numa luta de vida ou morte contra um inimigo no campo de batalha, o que pode semelhantemente ser aplicado ao esforço para vencer as dificuldades que nós muitas vezes temos de encarar na vida cotidiana. O treinamento necessário para adquirir competência e habilidades de luta que possibilitem a derrota de um inimigo numa batalha de certa forma também é valioso para a formação do intelecto. A maioria das técnicas tradicionais de jujutsu foi criada somente para mutilar ou matar o inimigo e não trazem de forma alguma nada de positivo moral, intelectual nem fisicamente. No entanto, concluí depois de modificações que muitas dessas técnicas de jujutsu poderiam ser executadas de maneiras menos perigosas; poderiam ter uma natureza prática para o cotidiano da vida moderna, ter valor como exercício físico e ajudar no desenvolvimento das faculdades mentais.

Além dos estilos Tenjin Shinyo e Kito, estudei técnicas de outras escolas de jujutsu. Também descobri que o treinamento das artes marciais pode ser utilizado como uma potente força na busca do autoaperfeiçoamento. A partir dessa variedade de estilos de jujutsu, decidi adotar as técnicas mais eficazes e adicionar algumas novas ideias. Entretanto, para criar o judô, formei meu próprio sistema de treinamento físico e mental. Ocorreu-me também que eu não devia guardar esse conhecimento apenas comigo, mas que devia ensiná-lo a outros, por todo o mundo.

Na época, havia no país relativemente muita gente interessada em diversas artes marciais. No entanto, muitos tem aversão em viver no passado e acham que é melhor desistir  de praticar atividades tão ultrapassadas como as artes marciais. Assim, as artes marciais começaram a perder a popularidadeque tinham anteriormente, sobretudo os estilos de jujutsu que não utilizam armas. Procurando reverter a queda de seus rendimentos, alguns mestres de jujutsu começaram a promover encontros para exibições. Lançavam desafios aos lutadores de sumô e praticantes de outros estilos de jujutsu. A cobrança de ingresso dos espectadores ajudava a elevar seus salários. Desse modo, o mundo das artes marciais começou a ser transformado numa atividade do ramo do entretenimento. Com isso, o verdadeiro caráter dessas artes foi alterado e se degradou radicalmente. Até certo ponto, essa mudança de situação fez reduzir ainda mais a popularidade anterior do jujutsu como atividade participativa. Quando comecei a ensinar artes marciais com seriedade, não ensinava o jujutsu tradicional dessa maneira, mas como uma arte baseada em espiritualidade profunda e de longo alcance. Uma vez que o jujutsu caiu em grande descrédito, propositalmente não usei mais o termo jujutsu, achei melhor empregar outro nome, entre eles “judô Kodokan”.

O espírito essencial para triunfar numa luta é o que em grande parte determina o resultado e tem implicações importantes para a vida. No judô, ensina-se em primeiro lugar ao aluno o “dô” ou “caminho para viver a vida”, em outras palavras, um estilo de vida. Em seguida, ele aprende as técnicas de luta apropriadas para a prática do judô. Quando pensei em um nome ara essa nova atividade, propositadamente não o mudei completamente para manter o sentido de “ju”, que quer dizer maleável ou flexível, e acrescentei o “dô”, caminho ou modo de vida. Desse modo, o nome que escolhi foi judô.

A palavra “judô” na verdade tinha sido usada antes por um dos meus ex-mestre de jujutsu. Além disso, também fora empregada durante uma época pela conhecida escola Jikishin, localizada na região de Izumo-no-Kumi. Apesar disso, eles raramente a usavam. Na maioria das vezes, referem-se a seu estilo particular de jujutsu como Ywara ou Taijutsu. Portanto, fui o primeiro a divulgar o uso do termo “judô”. Da mesma maneira, o nome “kendo” era às vezes utilizado no kenjutsu, uma arte marcial conhecida desde tempos ancestrais. Atualmente, porém, o nome kendo, assim como judô, tem sido empregados mais largamente.

Nos últimos anos, em vez de se referir à minha arte pelo nome oficial “judô Kodokan”, a maioria das pessoas a chama simplesmente de judô. Contudo, o termo judô Kodokan é especial porque tem aplicação ampla e significado profundo. O instituto a que dei o nome de Kodokan é, portanto, o local onde a arte do judô é ensinada. Se eu quisesse apenas ensinar uma arte marcial, talvez tivesse batizado meu dojo de Renbukan (instituto para prática de artes marciais) ou quem sabe Shobukan (instituto militar). Evitei, contudo, usar esses nomes. O motivo principal da escolha do nome Kodokan é o fato de “dô”, do judô, significar “caminho” fundamental da vida em que as aptidões são utilizadas ou manifestas.

(Esse relato de Kano data de maio de 1882. Nos três artigos seguintes, algumas informações me foram fornecidas por terceiros.) Com base em sua ideologia, em 1882, com 21 anos de idade, Kano fundou seu Kodokan no Templo Eisho, na região de Shitaya, Tóqui. (Sr. Ochiai)

Texto extraído do livro Memórias de Jigoro Kano, de Brian N. Watson

Por que o judô foi criado?

Desde a época medieval, o Japão era berço da prática de diversos estilos de luta corporal, onde também se  incuíam a utilização de armas.

Os mais temidos e respeitados mestres dessas artes eram os Samurais. Conhecidos por seguir um rigoroso código de ética e pela maestria no uso da katana, os samurais eram soldados de um só senhor e gozavam de elevado status social.

Acontece que com a abertura dos portos japoneses ao ocidente e com o fim da era Meiji, a casta samurai foi abolida, tendo sido proibido, inclusive o uso da espada, exceto para as forças do governo. Por conta das mudanças históricas, tais mestres foram se marginalizando e não era raro se observar nas ruas das grandes cidades, japoneses demonstrando técnicas em troca de dinheiro.

Kano nasceu no fim do Xogunato, em 1860, e em 1877, início da era Meiji, iniciou seus estudos de jujutsu na escola Tenshin Shin´yo, com o professor Hachinosuke Fukuda. Esse período de transição entre o fim do Xogunato e início da era Meiji foi bastante conturbado e como Kano teve a oportunidade de estudar com vários mestres, pôde perceber as diferenças de cada técnica.

Para descrever as impressões do próprio criador do judô a respeito de sua experiência com as técnicas de luta da época, ninguém melhor que o próprio mestre:

Quando eu percebia diferenças nas formas de ensino das técnicas entre um professor e outro, em geral me sentia perdido, sem saber qual era a correta. Isso me levou a procurar um princípio que delineasse o jujutsu, um princípio que fosse aplicado sempre que se atacasse o oponente. Após um abrangente estudo sobre o assunto, percebi um princípio único que unia tudo: era necessário fazer o uso mais eficiente possível das energias mental e física. Com esse princípio em mente, estudei novemente todos os métodos de ataque e defesa que tinha aprendido, mantendo aqueles que estivessem de acordocom esse princípio. Descartei os que não estavam de acordo e substituí-os por técnicas em que o princípio estava corretamente aplicado. Ao conjunto de todas as técnicas resultantes chamei então de judô, para distinguir essa arte de sua predecessora, e é ela que nós ensinamos na Kodokan.

Fica claro que a intenção inicial de Jigoro Kano era a criação de um sistema eficiente de ataque e defesa, contudo, seu próximo questionamento foi se esse mesmo princípio poderia ser aplicado na melhoria da saúde, ou seja, na educação física.

O fato de Kano ser considerado o pai da educação física no Japão nos demonstra o quão eficiente seu sistema de técnicas e princípios se fez para seu país e para o mundo.

Criação do Judô

Muitas são as histórias que envolvem a criação do judô e seu criador, Jigoro Kano.

Demorei um pouco mais para essa postagem pois tenho o compromisso de trazer informações fidedignas a quem quer que as leia.

Achei prudente e justo que minha fonte de pesquisas principal fossem as fontes históricas mais confiáveis que eu pudesse encontrar. Nesse contexto, ninguém melhor que o próprio Jigoro Kano, em seu livro, JUDÔ KODOKAN, para nos trazer tais relatos. Também usei como fonte confiável o site do INSTITUTO KODOKAN (www.kodokan.org), o qual tomei a liberdade de traduzir para vocês.

BOM PROVEITO!

Jigoro Kano

O Judô Kodokan foi fundado em 1882 por Jigoro Kano, que quando jovem iniciou a prática do jujutsu para fortalecer su corpo franzino. Kano estudou ambos os estilos Tenjin Shinyo-ryu e Kito-ryu de jujutsu clássico, eventualmente dominando seus mais profundos ensinamentos, e suplementando este treinamento com ávido interesse em outras formas de combate. Integrando o que ele considerava positivo dessas artes com suas próprias idéias e inspirações, ele estabeleceu um conjunto revisado de técnicas de treinamento fisico, transformando também o tradicional princípio do jujutsu de “vencer a força pela flexibilidade” para o princípio da  “máxima eficiência do uso da energia física e mental.” O resultado foi um novo conjunto teórico e técnico que Kano considerava mais adequado às necessidades do homem moderno.

A essência desse sistema está expressa no axioma “máxima eficiência no uso da energia”, um conceito que ele considerou tanto a pedra angular para as artes marciais, como um princípio útil em muitos aspectos da vida. A prática aplicada desse princípio poderia contribuir em muito para o desenvolvimento humano e social, incluido a “mútua prosperidade de sí próprio e dos outros”, que ele identificava como o verdadeiro propósito do treinamento. O que Kano criou transcedeu meras técnicas para atingir um conjunto de princípios a fim de atingir o aperfeiçoamento próprio. Para refletir isso, ele substituiu “jutsu” (técnica), na palavra “ju-jutsu”, pelo sufixo “do” (caminho) para criar um novo nome para essa arte: judô. Seu centro de treinamento ele batizou “Ko-do-kan”, ou “o lugar onde se ensina o caminho”

Kano também tem sido como o “pai da educação física japonesa”. Como diretor da Escola Superior de Tókio, ele criou a Faculdade Geral de Educação Física, voltada ao treinamento de professores capacitando-os a trazer uma educação física de qualidade para os jovens japoneses. Ele também ajudou a fundar a Associação de Esportes Amadores do Japão e, em 1909, ele se tornou o primeiro japonês a fazer parte do Comitê Olímpico Internacional.
Kano viajou ao exterir 13 vezes, ensinando e demonstrando o judô para ajudar a introduzir essa arte para pessoas de todo o mundo.

Hoje, a Federação Internacional de Judô inclui representações de 195 países e regiões, com praticantes de todos os estilos de vida, usando seus quimonos e pisando nos tatames para forjar suas mentes, corpos e espíritos através do Judô criado por Jigoro Kano.

“Nunca te orgulhes de haver vencido a um adversário, ao que venceste hoje poderá derrotar-te amanhã. A única vitória que perdura é a que se conquista sobre a própria ignorância.” – Jigoro Kano